terça-feira, 5 de setembro de 2017

A alma por trás de... Ana Oliveira


A Alma Por Trás de... Ana Oliveira

 


Acordou com o cheiro do mar. Deambolou, meio zonza, até às janelas, do estilo francês, que davam acesso às traseiras da casa e ao trilho que lhe levava à praia. 

A meio caminho, arrependeu-se de não ter levado um casaco. Abraçou-se e continuou, a tiritar de frio, determinada a parar apenas em frente ao mar. 

Ali, perante aquela imagem, sentou-se no areal e encolheu-se o mais que podia. Estava frio, sim, mas a necessidade de conversar com o mar era bem maior que um ocasional tremer de ossos.

Fechou os olhos e concentrou-se na sua própria respiração. Aos poucos, relaxou e focou-se apenas no barulho do mar. Inicialmente, eram as ondas a bater na areia que se faziam ouvir. Depois, o assobio nas conchas no fundo do mar tornou-se mais evidente. Por fim, e finalmente, a voz do seu pai fez-se ouvir.

- Ana, minha filha, segue os teus sonhos sempre. Não desistas nunca, minha filha. Estou sempre no teu coração.

As lágrimas, suas mais fiéis companheiras, escorreram pela sua face e tocaram-lhe os lábios. Saborou o sal e teve a certeza que estas lágrimas vinham do mar. Respirou fundo e ganhou coragem para responder.

- Meu pai, minha força, meu porto seguro, meu anjo da guarda. Vou seguir sempre os meus sonhos porque sei que caminhas comigo, lado a lado, sempre. 

- Eu amo-te, Ana, minha filha.

- E eu a ti, meu pai. Tenho tantas saudades tuas.

- Não tenhas, minha filha. Estou contigo, sempre. Sou parte de ti, tal como tu és parte de mim...

- Eu perdoo-te, meu pai. Queria tanto abraçar-te novamente.

- Caminha até ao mar, minha filha. Senta-te à beirinha, tal como fizeste hoje, e deixa envolver-te pela sua força, pelo seu cheiro, pela sua melodia. Sou eu que te abraço, minha filha. Sou eu que te embalo. Amo-te...

A voz do seu pai silenciou-se e foi substituída pelo bater das ondas na areia. Aos poucos, voltou a ficar ciente da realidade à sua volta. O tiritar dos ossos e o bater dos dentes tornaram-se, subitamente, ensurdecedores.

A custo, levantou-se e voltou para casa. Aninhou-se na cama e tentou dormir. A conversa que teve com o pai, tinha trazido alguma paz mas só o tempo poderia ajudar a aguentar a saudade que lhe assaltava o peito. Os ossos ainda dormentes, do frio, também não a deixavam dormir. Levantou-se e ligou o rádio. Deixou-se envolver pela música que tocava e começou a dançar suavemente e em bicos de pés. Rodopiou ao som da música e viu-se, por momentos, livre de preocupações. Dançar era a sua salvação. Quando dançava, a sua alma viajava para outro mundo e via-se novamente nos braços do pai, a aprender a dançar, passo a passo, compasso a compasso...
O seu gato juntou-se a ela e juntos dançaram até ao amanhecer. Seu fiel companheiro, deitou-se à beira da cama e ronronou expressando cansaço. Ana, rendeu-se. Afagou o gato e com um sorriso nos lábios desligou a música e voltou para a cama. Finalmente, com a alma solta e livre, adormeceu.
 

Um texto de: Adelaide Miranda
Setembro 2017

Contacto para entrevistas e shows:
ana_oliveira_1987@hotmail.com

 
 
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