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sábado, 13 de agosto de 2016

A alma por trás de... Paulo Costa Gonçalves

 
As portas da alfândega fecharam-se. Paulo olhou para trás com um misto de tristeza e insegurança nos olhos. Depois de tantos anos de esforço, a libertação das fronteiras ditou o seu destino. Não havia necessidade para tantos funcionários e com a, praticamente, livre circulação de bens e pessoas perdeu o emprego.
- Tristezas não pagam dívidas. Se pagassem, estávamos aqui a chorar baba e ranho. – Disse a si mesmo enquanto colocava a sacola às costas. Virou-se, seguiu em frente e nunca mais olhou para trás.
Sentou-se à mesa da cozinha, com vários jornais espalhados e abertos na página dos classificados, e começou a escolher possíveis trabalhos. Seleccionou vários e foi à luta.
Emigrou, trabalhou nas obras, foi comercial... Enfim, fez o que achou necessário para levar o sustento para a sua família. Com o passar dos anos e apesar das dificuldades, sempre lutou contra as adversidades com um sorriso nos lábios.
- Oh Paulo, com tantas reviravoltas e incertezas como consegues estar sempre a sorrir?- Perguntavam os amigos e os mais chegados.
- Tristezas não pagam dívidas. Se pagassem, estávamos aqui a chorar baba e ranho. – Respondia sempre com um sorriso nos lábios.
Aos 43 anos, decidiu voltar a estudar. Chamaram-no louco, mas ele louco não era. Era sonhador e lutador. Sempre o foi, tanto que terminou a licenciatura em Sociologia e Planeamento com distinção. Ganhou um prémio académico e sem dar conta caiu de paraquedas no departamento de Investigação.
Infelizmente, porque um lutador deve sempre ter adversários para defrontar, Paulo deparou-se com uma doença. Uma vez mais, lutou, esbracejou, seguiu em frente...
- Então Paulo, do que te ris? Com tantos problemas que tens, do que te ris? Estás louco? – Perguntavam os amigos mais chegados.
- Tristezas não pagam dívidas. Se pagassem, estávamos aqui a chorar baba e ranho. – Respondia sempre com um sorriso nos lábios.
Ganhou a luta contra a doença, Paulo era um lutador difícil de derrotar e uma vez mais seguiu a sua vida, com sorriso característico nos lábios. Afinal, os desafios que encontrou pela frente apenas serviram para torná-lo mais forte. Ultrapassada a doença e de volta a rotina, Paulo procurou um novo desafio. Com gotas de suor a escorrerem pela fronte, lutou com o computador em busca de uma palavra passe. Lembrou-se do blogue que tinha iniciado anos antes de adoecer, mas não conseguia aceder. Fez mil tentativas, e quando já estava prestes a desistir lembrou-se da sua marca de tabaco favorita, a Amberliz, que começou a enrolar no tempo das poupanças, e como que num acto de magia, qual Gruta do Ali Babá, acedeu ao blogue.
Os primeiros capítulos do Herdeiro de Antioquia lá estavam e, finalmente voltou a escrever. Escrevia nos seus tempos livres, no meio das suas batalhas, e lentamente o livro ganhou forma. Ganhou coragem para publicar e surpreendeu-se com a receptividade. Afinal, o Paulo, sociólogo e investigador, era também escritor.
Por vezes, olhando as estrelas, relembrava a sua vida, as batalhas travadas e vencidas. Apesar de nem sempre ter tomado as decisões corretas, não tinha arrependimentos. A sua vida era o que era e todos os momentos que viveu e decisões que tomou tornaram-no quem era e levaram-no precisamente àquele lugar. Uma a uma, lembrava-se de todas as pessoas que tinham até então passado em sua vida e sorria com carinho ao recordar algumas que manteve em segredo. A descrição valeu-lhe mil aventuras vividas, mas nunca contadas.
A dimensão do céu, trazia-lhe sempre a certeza de que o mundo era incerto. Não sabia que luta o esperava no futuro, mas isso não o deixava inquieto. Viesse o que viesse iria defrontar destemidamente como sempre o tinha feito. Afinal de contas, tristezas não pagam dívidas e se pagassem...

 
 
Adelaide Miranda, 13/08/2016
 
Contacto para entrevistas e encomenda de exemplares:

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

A alma por trás de... Lancelot


 - Lancelot! Lancelot! Lança! – Gritavam todos em uníssono no pavilhão. – Lança, Lancelot! Agora!
No momento em que soltou a bola, Lancelot, teve a certeza que ia acertar. Observou o seu trajeto em câmara lenta e parou de respirar por uns momentos enquanto estava na expectativa de marcar o cesto. Assim que a rede adaptou-se à invasão forçada, o marcador aumentou dois pontos e o relógio soou o final da partida, o público levantou-se e festejou a vitória… A sua vitória… Se existia uma certeza na sua vida, essa certeza era o basquetebol, nunca conseguiu exprimir o que sentia quando tinha uma bola na mão, aquela emoção que aperta o coração ao mesmo tempo que o torna acelerado… Era difícil de explicar.
- Desculpe? Pode dar-me o lugar, por favor? – Perguntou uma senhora com vários sacos na mão.
- Com certeza. Sente-se. – Afastou-se e encostou-se à porta do metro. Sempre que estava em compasso de espera a sua mente tinha a tendência de transportá-lo para aquele último jogo, fazia-o sempre reviver aquele cesto marcado no final da partida. Não se podia queixar, estas viagens permitiam que o seu corpo sentisse as emoções passadas, dando-lhe a força necessária para viver o presente e planear para o futuro. Desde cedo que o basquetebol tornou-se a sua vida mas a realidade é que nem sempre aquilo que nos define consegue garantir a nossa subsistência na sociedade actual. A força que permitiu que Lancelot seguisse um caminho diferente, longe de conflitos, e crescer como homem, tornou-se insuficiente para sustentar as obrigações monetárias. Jogar? Sim, sempre, por prazer.
Quando chegou a altura de procurar opções de subsistência o destino tramou-o. O eterno cavaleiro da Távola Redonda foi abraçado por outra paixão que o consumia. A paixão que ganhou pelas lendas arturianas, os famosos cavaleiros e a mítica Excalibur, durante os seus anos no colégio francês, tornou-o um homem de letras. Sempre que se via com uma caneta na mão escrevia pequenas músicas que guardava para si, pois sentia que não tinha muito ainda para partilhar. Na altura, era novo, a sua única experiência era o basquetebol e sentia que não tinha muito mais para dar. Pensou em tirar Direito Cívico, ingressar na faculdade como a maioria dos jovens e seguir uma vida denominada “normal”. Mas o destino tramou-o. Sem estar à espera viu-se numa batalha de “Freestyle” e sentiu a necessidade de ganhar. Apegou-se ao desafio e prometeu voltar. Fechou-se um mês em casa e voltou para derrubar os outros concorrentes. Um a um foram ficando para trás, até que no final apenas Lancelot estava de pé. O cavaleiro tinha conquistado mais uma vitória.
E assim o hip-hop escolheu-o. Como que um verdadeiro cavaleiro foi escolhido para defender o hip-hop português numa altura em que este estilo de música começava a ganhar raízes em Portugal. “Lancelot, o Pioneiro”. Um dia quem sabe alguém se lembraria dele assim. Durante anos fez música, durante anos viveu da música, durante anos foi feliz com a música a tempo inteiro e o basquetebol nos tempos livres. Quem ouviu hip-hop em Portugal sabe quem é o Lancelot…
O destino, seu fiel amigo, bateu-lhe à porta uma vez mais. Enquanto esteve sozinho a música e o seu modo de vida eram suficientes para fazê-lo feliz, mas quando se ama… Quando formou uma família deixou de ser suficiente. Andar de um lado para o outro em concertos, dormir em parte incerta, já não era aceitável. Não para um coração de pai. “Lancelot, o Pioneiro”, tornou-se “Lancelot, o Pai”. O defensor e protector da sua família. Arranjou um trabalho das nove às cinco, como a maioria da população, e por um tempo deixou de escrever. Por um tempo esqueceu-se da música e viveu como “Lancelot, o Pai”. A insatisfação, que sempre sentiu injusta, indevida, foi pouco a pouco tomando conta de si sem saber o porquê. Um dia, um belo dia, numa reunião escolar o seu filho disse com orgulho aos professores:
- O meu pai faz música. – Sorriu e abraçou-se ao pai.
Nesse mesmo dia, Lancelot chegou a casa, pegou numa caneta e escreveu. Escreveu até não poder mais. As letras fluiram como que as águas correntes de uma barragem e a insatisfação foi-se dissipando com cada música finalizada. Era a peça que lhe faltava. Não precisava de se anular, não era pior pai por voltar a escrever e a cantar. Não era pior pai por seguir o seu sonho. Era um pai melhor se assim o fizesse e mostrasse à sua família que nunca se deve desistir do que queremos desde que nunca nos esqueçamos das responsabilidades. Lembrou-se de quem era... O seu nome era Otoniel, uma figura biblíca e um defensor de Deus. “Otoniel, o Leão de Deus”, assim era o significado do seu nome. Nasceu para ser defensor, defensor dos seus princípios, defensor dos seus sonhos, defensor da sua família, defensor de si próprio.
No meio de tanta divagação, Otoniel, por pouco passou a sua paragem. Saíu a correr do metro, mesmo em cima do alarme de fecho de portas, e dirigiu-se para a saída. Tinha de ir para o estúdio gravar o álbum que estava quase pronto. “Lancelot, o Pioneiro” estava finalmente de volta. Na mala, carregava o equipamento de basquetebol e o seu bloco de notas. Depois do estúdio tinha de ir jogar, meia horinha para tirar o stress. Assim que entrou no estúdio recebeu uma mensagem no telemóvel:
- Faz uma música que ninguém consiga esquecer, papá.
Sorriu... Finalmente sabia para o que vinha. O eterno cavaleiro e defensor da sua própria Távola Redonda, “Lancelot, o Leão de Deus”.







Adelaide Miranda, 09/08/2016
O músico está disponível para contacto:

insta: @lancel0t_odc
facebook: https://www.facebook.com/lancelot_odc

sábado, 16 de julho de 2016

Apresentação de "Contos de Alma"

Olá,
o meu nome é Adelaide Miranda. O que eu sou? Já não sei. Não tenho profissão que me defina... Uma amante da criatividade e uma viciada em desafios. Engenheira de profissão, escritora nas horas vagas, amante de propriedades e sócia de uma empresa do ramo imobiliário, "entertainer", animadora de eventos e há quem diga "manager" de artistas nas horas ainda mais vagas. O meu cérebro não pára. Não consegue parar e em vez de lutar contra ele decidi abraçar a sua vivacidade e acompanhá-lo. Quando ele quiser desligar, ele desliga e, eu desligo com ele. Por vezes caio na cama como que desmaiada... Não me considero uma "persona" normal. Sou como sou... Meio louca mas é esta loucura que me define e me permite seguir em frente...
Este blog é o responder a um "chamado", a um grito do meu cérebro: Cria! Faz algo diferente! Fala de gentes reais! Conta histórias reais...
Neste blog, apresento-vos a escritora "Adelaide Miranda". Assim irei assinar os meus textos, porque assim me identifico...
Aqui neste pequeno blog, que ainda tenho muito que desbravar em relação ao seu layout e funcionamento, irei deixar pequenas histórias de vida. Histórias de artistas, de escritores, de engenheiros, de cozinheiros, empregadas domésticas... Histórias de pessoas do mundo. Pequenas entrevistas efectuadas por mim e transformadas em pequenas histórias. Estou cansada de ver entrevistas com perguntas e respostas. Quero dar a conhecer ao mundo a alma por trás das pessoas que o formam, da melhor forma que o sei fazer... Contando histórias... Pequenas histórias... Pequenos contos... Contos com alma e veracidade...
Acompanhem-me e sigam esta série de "Contos de Alma".
Quem quiser a sua história contada, a sua alma "a nú", que me envie mensagem privada na minha página do facebook ou através do email: info@hotmail.com. Conto histórias de quem quiser se dar a conhecer.
Histórias reais de cidadãos do mundo... ou do Universo... Não descrimino ninguém...
E chega de conversa... Vamos a histórias... Vamos a contos... Vamos a "almas"...
Até já

Adelaide Miranda
(escritora)