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terça-feira, 24 de outubro de 2017

A alma por trás de... Patrícia Rocha

A alma por trás de... Patrícia Rocha





Colocou a mão na barriga e riu às gargalhadas. Pelo meio, enquanto buscava ar, soltava um ronco ou outro, tamanha era a loucura. Em vez de a fazer parar, o amor da sua vida juntou-se à risada desenfreada. Eram assim, cúmplices até na palhaçada. Com aquele ar de menino perdido, mas com a sabedoria de um homem de avançada idade, conquistou-a. O amor, a paciência, a tolerância, e a partilha entre eles fazia-lhe acreditar que seria para sempre.
Patrícia, pertencia à velha guarda e acreditava num amor para toda a vida. A vida sabe melhor a dois. A vida sabe melhor quando as batalhas são partilhadas, os planos são traçados e as decisões tomadas no plural. Em tempos, tinha perdido a convicção. A doença chamada egocentrismo tinha-se espalhado pelo mundo e ela julgava que já não era possível um amor em torno de nós, não quando o Eu tinha uma força poderosa. Até ele… Com ele o sonho de ter uma família era cada vez mais real.
O que mais a fascinava era o facto de não ter necessidade de se esquecer de si mesma. Por vezes, quando se ama, passamos para segundo lugar, mas com ela isso não tinha acontecido. Nunca abdicou da própria felicidade e só sendo feliz pode fazer os outros felizes. Todos os dias arregaça as mangas e atira-se ao mundo, sempre vestida de um sorriso e também a rigor. Guerreira, seguindo as pegadas da mãe, não deixa nada por fazer e não permite que a tristeza a consuma.
Para se libertar, escreve. Escreve o que lhe vai na alma. Escreve sobre sentimentos, emoções, experiências. Uma terapia que a faz sentir bem, assim como dançar. Sentir-se bem é uma prioridade. Gosta de se sentir bonita para si própria, sente-se mais confiante, mais capaz. Aquela história de rebanho nunca lhe fez muito sentido e segue o seu próprio caminho. A vida é curta e quer viver tudo, hoje. O amanhã… O amanhã pode não chegar.

Saiu do transe e da risada, incrível como tão facilmente perdia-se nos pensamentos. Já não se lembrava o motivo de tanta galhofa, mas também não tinha importância. O importante era estarem ali, assim, juntos. Era uma apaixonada pela vida e vivia cada momento intensamente, in… completamente.




Texto: Adelaide Miranda, Outubro 2017

A promotora de marketing digital / escritora está disponível para contacto:
email: pr.incompleta.mente@gmail.com
Facebook: www.facebook.com/incompleta.mente

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A Alma Por Trás de... Ana Silvestre

A Alma Por Trás de... Ana Silvestre



Ana, deixou-se chorar. Nem sempre conseguia ser forte. Não se pode ser sempre forte. Por vezes, é necessário abrir as guardas e permitir que as emoções invadam a nossa alma. Por vezes, é necessário sentir as emoções ao rubro, absorvê-las… 
Desde criança que sempre foi assim. Sempre sentiu a necessidade de entregar-se às emoções. Sempre precisou de sentir intensamente. Sempre precisou de entender o porquê das coisas que a rodeiam. Tal como as emoções, o dia a dia quotidiano intrigava-a. As perguntas que tinha não podiam ficar sem resposta. Intensamente…
Sim. Essa é a palavra que melhor a define. Intensidade. Ana, a intensa. Sempre ouviu dizer que as pessoas mudam com o tempo. Contudo, Ana não mudou com o tempo, apenas intensificou-se. A criatividade, a generosidade, a determinação, a frontalidade que a caracterizavam em criança, acompanharam-na para a vida adulta. Permitiram-lhe viver experiências que a definem. Cada momento vivido, intensamente, cravado na sua alma como que uma impressão digital.
Cada momento vivido, imortalizado, de uma forma ou de outra, nos textos que escreve. O choro tinha começado assim. Tinha chegado ao fim de mais um livro. O misto de emoções, refletidas na história das suas personagens, por norma entravam em erupção ao chegar ao último paragrafo. Ao escrever, dava sempre tudo o que tinha para dar e a descarga de adrenalina, com o final da história, culminava sempre numa choradeira sem fim.
Ana, a intensa… olhou para o relógio e compôs-se. A vida, afinal, não parava. Apressou-se a preparar o jantar. Era dia de casa cheia, dia de alegria, dia de festa, e não podia ser de outra forma. Não sabia viver sem a família e sem os amigos. Eram a sua fonte de energia e ao mesmo tempo a sua razão de viver. O seu “centro”. A sua entrega era total. Em todas as escolhas que fez na vida, a família veio sempre em primeiro lugar. Não podia ser de outra forma. Não fazia sentido de outra forma…

Ana, a intensa. A Ana que dá sem esperar nada em troca. A Ana que vive como se hoje fosse o último dia. A Ana que escreve porque não consegue existir de outra forma. A Ana que é a Ana porque tem a família que a ama. A Ana que desde criança sabia que só deste jeito poderia ser a Ana. Pois é, ela sabia… Já estava escrito.

Texto: Adelaide Miranda, Outubro 2017


A escritora, Ana Silvestre, está disponível para contacto:

facebook: https://www.facebook.com/eusabiaestavaescrito

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

A alma por trás de... Paula Bollinger

A alma por Trás de... Paula Bollinger




Paula, sentou-se no sofá e aconchegou-se no seu canto favorito: o ombro do seu marido. Respirou paz e amor. Finalmente, encontrou o que tinha procurado uma vida inteira. Ali, aninhada no seu porto seguro, grudada no seu príncipe encantado, alcançou o sonho de uma vida: encontrar a alma gémea, a alma que a entendesse sem que ela precisasse falar, a alma que a protegesse sem que ela precisasse de pedir socorro, a alma que encaixasse perfeitamente nas curvas quebradas da sua.
Quase a adormecer, despertou com o samba de roda que se dançava no seu ventre. O maior milagre da sua vida, a pequena Isabella, talvez por sentir a paz interior, a felicidade e o amor que emanava da sua mãe, decidiu celebrar sambando ao ritmo do amor. Carinhosamente, Paula colocou a mão de António sobre o seu ventre e ambos sorriram com cumplicidade.
É incrível, como a vida corre e como o tempo passa, pensou Paula. Sonhadora e aventureira, desde pequena, sempre soube que o segredo da vida era viver intensamente. Cidadã do mundo, cedo aprendeu que a paz e a estabilidade encontra-se dentro do lar. Cedo aprendeu que o lar não é feito de quatro paredes mas de amor e união. Passou por vários países e absorveu muitas culturas. Com cada mudança aprendeu que nunca se deve deixar nada por fazer porque depois pode ser tarde demais. Ao crescer, viveu em vários cantos do mundo e, apenas teve uma constante na vida: a família.
Como mulher, sempre lutou por viver a vida intensamente. A vida não vale a pena ser vivida se for tomada como garantida. A energia que carregamos deve ser utilizada para seguirmos os nossos sonhos, para sermos melhores que nós próprios. Todos os dias devemos competir com o nosso eu de ontem, tentarmos ser melhores, mais humanos, mais vivos. Nas mil vidas que viveu tentou sempre fazer o que a sua alma pedia, o que a sua alma gritava. Sem medos largou o que teve que largar, recomeçou o que teve que recomeçar. Sempre definiu o seu amanhã, sempre definiu a sua profissão. Lutou contra o protótipo da mulher convencional e foi diretora de televisão numa altura em que as mulheres ainda eram vistas como domésticas. Tornou-se fotografa masculina contra os standards da sociedade. Viveu muito e perdeu pouco. Os erros foram lições da vida que a ajudaram a chegar onde chegou hoje.
Conquistou o mundo, mas faltava ser conquistada. Procurou o amor, o lar que lhe trouxesse paz interior, e lutou. Lutou muito por amor. O maior sonho, o de ser mãe, foi lhe roubado pela natureza. O diagnóstico, pouco favorável, tirou-lhe a esperança e deixou de sonhar em gerar uma criança. Mas o amor, o amor não se procura...  O amor encontra-se. E quando menos esperava, encontrou a alma que lhe pertencia. Uma alma que entrou no seu intimo e reacendeu a paixão pela cozinha. Uma alma que entrou no seu íntimo e curou a sua dor profunda. O amor... O amor faz milagres...

Aninhada no seu porto seguro, Paula, deixou-se adormecer. O amor faz milagres... O maior milagre da sua vida estava a sambar no seu ventre. Viveu mil vidas em uma, fez o que tinha que fazer, lutou o que tinha que lutar. A vida conspirou para que nesse preciso momento estivesse exatamente onde tinha de estar: ao lado da sua alma gémea, carregando em si, contra todas as expectativas, o milagre da vida. 



Texto: Adelaide Miranda, Outubro 2017

A fotografa/blogger, Paula Bollinger, está disponível para contacto:

instagram: @paulabollinger_entrecolheradas
facebook: https://www.facebook.com/paulabollingerentrecolheradas

Blog:
www.entrecolheradas.com

terça-feira, 5 de setembro de 2017

A alma por trás de... Ana Oliveira


A Alma Por Trás de... Ana Oliveira

 


Acordou com o cheiro do mar. Deambolou, meio zonza, até às janelas, do estilo francês, que davam acesso às traseiras da casa e ao trilho que lhe levava à praia. 

A meio caminho, arrependeu-se de não ter levado um casaco. Abraçou-se e continuou, a tiritar de frio, determinada a parar apenas em frente ao mar. 

Ali, perante aquela imagem, sentou-se no areal e encolheu-se o mais que podia. Estava frio, sim, mas a necessidade de conversar com o mar era bem maior que um ocasional tremer de ossos.

Fechou os olhos e concentrou-se na sua própria respiração. Aos poucos, relaxou e focou-se apenas no barulho do mar. Inicialmente, eram as ondas a bater na areia que se faziam ouvir. Depois, o assobio nas conchas no fundo do mar tornou-se mais evidente. Por fim, e finalmente, a voz do seu pai fez-se ouvir.

- Ana, minha filha, segue os teus sonhos sempre. Não desistas nunca, minha filha. Estou sempre no teu coração.

As lágrimas, suas mais fiéis companheiras, escorreram pela sua face e tocaram-lhe os lábios. Saborou o sal e teve a certeza que estas lágrimas vinham do mar. Respirou fundo e ganhou coragem para responder.

- Meu pai, minha força, meu porto seguro, meu anjo da guarda. Vou seguir sempre os meus sonhos porque sei que caminhas comigo, lado a lado, sempre. 

- Eu amo-te, Ana, minha filha.

- E eu a ti, meu pai. Tenho tantas saudades tuas.

- Não tenhas, minha filha. Estou contigo, sempre. Sou parte de ti, tal como tu és parte de mim...

- Eu perdoo-te, meu pai. Queria tanto abraçar-te novamente.

- Caminha até ao mar, minha filha. Senta-te à beirinha, tal como fizeste hoje, e deixa envolver-te pela sua força, pelo seu cheiro, pela sua melodia. Sou eu que te abraço, minha filha. Sou eu que te embalo. Amo-te...

A voz do seu pai silenciou-se e foi substituída pelo bater das ondas na areia. Aos poucos, voltou a ficar ciente da realidade à sua volta. O tiritar dos ossos e o bater dos dentes tornaram-se, subitamente, ensurdecedores.

A custo, levantou-se e voltou para casa. Aninhou-se na cama e tentou dormir. A conversa que teve com o pai, tinha trazido alguma paz mas só o tempo poderia ajudar a aguentar a saudade que lhe assaltava o peito. Os ossos ainda dormentes, do frio, também não a deixavam dormir. Levantou-se e ligou o rádio. Deixou-se envolver pela música que tocava e começou a dançar suavemente e em bicos de pés. Rodopiou ao som da música e viu-se, por momentos, livre de preocupações. Dançar era a sua salvação. Quando dançava, a sua alma viajava para outro mundo e via-se novamente nos braços do pai, a aprender a dançar, passo a passo, compasso a compasso...
O seu gato juntou-se a ela e juntos dançaram até ao amanhecer. Seu fiel companheiro, deitou-se à beira da cama e ronronou expressando cansaço. Ana, rendeu-se. Afagou o gato e com um sorriso nos lábios desligou a música e voltou para a cama. Finalmente, com a alma solta e livre, adormeceu.
 

Um texto de: Adelaide Miranda
Setembro 2017

Contacto para entrevistas e shows:
ana_oliveira_1987@hotmail.com

 
 
Social Media:
 

terça-feira, 6 de junho de 2017

A alma por trás de... Rlynda

A alma por trás de... Rlynda




Cortou, cuidadosamente, os pedaços de tecido que a mãe lhe deu e fez um vestido para a sua boneca. O modelito que fez não estava igual ao da mãe, mas também não estava mau de todo. Olhou para a mãe com orgulho e abraçou-a depois de experimentar a roupinha nova costurada especialmente para ela. As colegas da escola admiravam os seus vestidos, que não se encontravam à venda em lado nenhum. Eram exclusivos, no mundo inteiro não havia sequer um modelo igual.

Sorriu com a memória e bateu palmas, vigorosamente, quando terminou o seu primeiro desfile. Mal quis acreditar que tinha conseguido. Praticamente, do nada, criou a sua marca de roupa, fez os contactos todos que achou de devia fazer, e mais alguns, contratou as melhores modelos de Indianápolis e... De repente, estava ali em frente àquele palco ensurdecida pelos aplausos. Depois daquele desfile, seguiram-se muitos outros. New York Fashion Week, Cleveland Fashion Week... As vendas online aumentaram e o sonho de abrir a loja aos poucos se foram tornando realidade. De modelitos para bonecas a modelitos para mulheres. Um sonho que cresceu nas mãos da mãe e quase ganhou vida nas suas... Faltou o quase... A loja não se concretizou e a realidade bateu à porta, mas mesmo assim, Rlynda, nunca deixou de sonhar.

Ergeu a cabeça e dedicou-se aos seus filhos a 100%. Não deixou de sonhar, mas deu tempo aos seus sonhos de amadurecerem. Durante dois anos dedicou-se aos filhos e à profissão de comissária de bordo. Valeu-lhe o apoio na educação das crianças, a benção de ter escolhido um pai presente para os seus filhos...

Rodeada de amor, sentiu um desconforto ao aperceber-se que algo faltava. Sabia que fazia parte da condição humana, a constante falta de satisfação, mas não compreendia de onde vinha. Apesar de nunca ter aberto a loja a costura continuava a ser parte da sua vida, mas aind assim faltava-lhe algo.  Tinha chegado a altura de abraçar um novo projeto, de fazer algo que lhe desse satisfação a nível pessoal. Agarrou-se à segunda paixão que tinha na vida: a música. Reavivou as memórias dos tempos em que subia aos palcos como dançarina e corista de tantos cantores que admirava. Sucumbiu à forma de como se arrepiava a dançar Kizomba e a cantar. Retornou a carreira que tinha colocado de lado, em tempos, por amor aos seus filhos. Juntou o amor à música com o amor à costura e continuou a costurar a sua própria roupa. As presenças no palco eram sempre acompanhadas de indumentária costurada por si. A vida sempre foi feita de escolhas e cada escolha reflete-se em algo que tem que ser deixado para trás. No passado, optou por deixar a música devido ao tempo que lhe roubava longe dos filhos e sem se aperceber apagou uma pequena chama no seu coração. Agora, como mulher, compreendia que a felicidade dos seus filhos iria depender da sua própria felicidade. Quanto mais feliz ela fosse, mais felicidade teria para transmitir e sentiu a necessidade de seguir o seu caminho.

Abraçou a carreira de artista, desta vez como mulher e como mãe. Aos poucos foi conquistando o seu lugar no mundo Kizomba, sempre fruto do seu esforço e dedicação. Aprendeu que uma mulher bonita tem que se esforçar mil vezes mais para marcar uma posição. Sentiu na pele a necessidade de dar dois passos para trás ao apostar em propostas que se revelavam não ir de encontro aos seus príncipios. Seguiu em frente com a consciência que antes de ser Rlynda, era a Arlinda, mãe, e mulher. Seguiu em frente com a vontade de que amanhã os seus filhos se pudessem orgulhar da mãe que têm.

O caminho é em frente. O caminho não é feito por uma estrada reta, por vezes a estrada faz-te andar dois passos para trás, mas é uma estrada com um destino que depende da força de vontade que se tem de se chegar lá. O seu caminho, inclui um microfone, tecido e tesoura. Ao seu lado caminham os filhos e é esse amor que lhe vai permitir cortar a meta e segurar os seus sonhos, cheios de vida nas mãos.

 
Um texto de: Adelaide Miranda
Junho 2017

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segunda-feira, 15 de maio de 2017

A alma por trás de... Tiago Ribeiro

A alma por trás de... Tiago Ribeiro



Viu-se rodeado de espelhos, mas não tinha nenhuma porta por onde pudesse sair. Todos os espelhos eram tão altos quanto a parede em que estavam encastrados e tinham um número cravado na base. Sentou-se no centro da sala e pensou no que fazer a seguir. Levantou-se e olhou para o espelho identificado como número 1. O estranho espelho não refletia a sua imagem, nem imagem nenhuma. Era um espelho baço, sem luz… virou-se lentamente e foi de encontro ao segundo espelho.
Surpreendeu-se ao ver a sua imagem, como se estivesse sentado numa mesa, a desenhar. Tinha um retrato à sua frente e copiava com precisão. Sorriu ao ver a sua expressão de felicidade ao chegar ao resultado final. O Tiago, do outro lado, corria de um lado para o outro com o desenho na mão.
Ficou curioso e virou-se para o terceiro espelho. O que o esperava? Do outro lado, completamente sorridente, ensinava um grupo de crianças a dançar ao som do hip-hop português. A coreografia incluía movimentos base de breakdance, tal como os inconfundíveis passos à Michael Jackson. No final, as crianças juntaram-se a ele e Tiago sorriu.
O quarto espelho tinha um palco ao fundo. Como que num anfiteatro as cortinas abriram-se e, Tiago, viu-se no meio de um grupo de dançarinos. Dançou com toda a força da sua alma e terminou ajoelhado no chão. Os aplausos estrondosos fizeram vibrar o espelho, e sentiu-se assolado por uma emoção que teve dificuldade em reconhecer, mas que permitiu que invadisse o seu coração.
De coração cheio, Tiago, colocou-se em frente ao quinto espelho. Sentiu o peito rebentar, quando se viu com o microfone na mão. Tremeu ao ver a emoção que carregava nos olhos e reconheceu-a. Sentiu o sangue a ferver e o coração a palpitar. O público aplaudiu e viu-se a olhar para os céus, a agradecer, como se quisesse fundir às estrelas.
A luz, que invadiu o espaço, ofuscou-o. Tiago, virou-se e deparou-se com o primeiro espelho. Piscou os olhos várias vezes de forma a ajustar-se à claridade. Aos poucos, a imagem ao fundo fez-se ver. Viu-se, ainda novo, em frente à maquina de Karaoke que tinha pertencido ao seu pai. De olhos fechados, cantava Bryan Adams, vezes e vezes sem conta, até acertar nos tons a cem por cento. Ao terminar, abriu os olhos e disse baixinho: “Para ti, meu pai.” O menino Tiago, aproximou-se do espelho e ofereceu-lhe o microfone. Estupefacto, colocou a mão dentro do espelho e agarrou no microfone. Sorriu, ao menino Tiago, e disse-lhe que tudo ia correr bem. Disse-lhe que não se preocupasse porque o pai estaria sempre com ele, e a sua memória bem viva dentro do coração.
A imagem do espelho desapareceu assim como a de todos os outros espelhos. Tiago ficou no escuro, no centro da sala, com o microfone na mão. Sem saber o que fazer, começou a cantar. Percebeu dentro daquela sala que cantar era a única arte que o fazia sentir completo. Era a única arte que o fazia sentir-se em paz. Ao fundo, surgiu uma porta para a qual se dirigiu. Atravessou-a e encontrou-se em cima de um palco. O seu lugar era ali. Cantou para a multidão da mesma forma que o menino Tiago cantou para o seu pai. Terminou com lágrimas nos olhos e pode jurar que viu, ao fundo, o pai a aplaudir freneticamente.

Abriu os olhos e reconheceu o seu quarto. Afinal, tudo não passou de um sonho. Levantou-se e foi até à janela. O silêncio da noite confortou-o e a luz das estrelas iluminou-lhe o espírito. Foi até ao sistema de som e agarrou no microfone. As estranhas emoções que sentiu no sonho, vieram ao seu encontro. Colocou o microfone ao peito e disse bem baixinho: Desta Vez é a Valer.

Um texto de: Adelaide Miranda
Maio 2017

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CEO: Viktor Machado TEL: 966 581 435 
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quarta-feira, 21 de setembro de 2016

A alma por trás de... Annia


A Alma Por Trás de... Annia





Não tinha noção de há quanto tempo estava fechada naquela torre. A única porta trancada por fora e a única janela alta demais para poder saltar. No início ainda tentou persuadir as aias que lhe traziam a comida e que lhe davam o banho a deixá-la sair…
- Por favor. Deixem-me sair. – Pedia delicadamente.
- Sabe que não podemos, menina Tânia.
- Por favor. Peço-vos.
- Não podemos, menina. É contra as nossas ordens. E, além disso, quer sair para quê? Aqui tem tudo, menina.
- Quero ir ver o mundo… Preciso ver o mundo…
O tempo passou e aos poucos, incrivelmente, foi-se habituando àquele espaço. Na realidade já mal se lembrava do mundo.
- Sair para quê? - Disse em voz alta. – Ouvi dizer que lá fora o mundo é cruel… A aia bem me disse que mesmo que eu saísse mal saberia defender-me. Sair para quê?
As horas, os dias, os anos passaram e embora a rotina do seu pequeno mundo não a incomodasse durante o dia, durante a noite tinha pesadelos. Alguma coisa a inquietava. Por breves momentos perguntava-se onde foi que perdera a força para lutar por si mesma. Não lhe faltava nada naquele pequeno mundo, mas por vezes sentia que lhe faltava tudo. Os pesadelos começavam sempre com ela à beira da janela a preparar-se para saltar e terminavam com o seu corpo inanimado no chão. Contudo, por mais estranho que parecesse o pequeno espaço de tempo em que se deixava cair sabia a liberdade. O coração pulava de excitação por saborear aquele momento em que livre voava ao encontro do chão… Acordava a tremer e falava para si mesma:
- Saltar para quê?
Certa noite acordou com uma voz suave que a chamava:
- Tânia. Acorda, Tânia.
- Uhm… O quê? – abriu os olhos com receio, pois não reconheceu a voz.
- Anda comigo, Tânia. Vamos sair daqui.
- Sair? Sair para quê? O mundo… esse mundo… Não me saberei defender.
- Não te preocupes com isso. Estou aqui para cuidar de ti e nunca te irei abandonar.
- Mas quem és tu? O que queres de mim?
- Vim libertar-te, Tânia.
- Não, não pode ser. Disseram-me que só poderia sair quando o príncipe me viesse resgatar. E tu não és um príncipe. Tu és uma menina…
- Anda Tânia, o tempo está a passar.
- Como entraste aqui?
- Anda, Tânia. Confia em mim.
Olhou para a rapariga que estava ao seu lado, o seu rosto… O seu rosto não lhe parecia estranho. Olhou no fundo dos seus olhos e sentiu que podia confiar. Aceitou a mão que esta lhe estendia e levantou-se. Aproximaram-se da porta e a misteriosa salvadora encostou-se à fechadura e cantou uma breve melodia. A porta abriu-se e Tânia olhou para ela incrédula.
- Como fizeste isso? Estes anos todos bastava-me cantar para abrir a porta?
- A música liberta-te, Tânia. Como é que te esqueceste disso? Agora vamos, o tempo urge.
Saíram do pequeno quarto e desceram as escadas, em caracol, quase que infinitas até chegarem a uma grande porta de madeira. Nesse instante, parou.
- Espera… As minhas aias… As minhas amigas? Nunca mais as vou ver?
- As tuas amigas? Tuas amigas?
- Sim… Fizeram-me tanta companhia durante este tempo todo. Vou sentir saudades delas…
- Tuas amigas? Libertaram-te? Mantinham-te aqui presa, tuas amigas?
- Sim… Elas não podiam…
- Não podiam? Nunca houve uma oportunidade? Ou apenas quiseram guardar-te só para elas e não te queriam partilhar com o mundo?
- O mundo? O mundo é escuro… Disseram-me. Tenho medo do mundo, não saberia defender-me.
- Tânia, o mundo é escuro mas também é claro… E tu podes aprender a defender-te do escuro e a apreciar o claro… Agora vamos que o tempo urge…
Com algum receio, Tânia respirou fundo e deixou-se levar por esta rapariga misteriosa. Decidiu continuar a confiar nela, apesar de ter medo do que lhe esperava lá fora.
Antes de abrir a porta, a salvadora, desembrenhou a espada e preparou-se. Tinha de defendê-las caso fosse necessário. Assim que a porta se abriu correram as duas em direcção à floresta. Apesar do medo, Tânia sorriu com a sensação do vento a passar-lhe pelo rosto. Já não sabia o que era correr. Tinha-se esquecido de como era bom.
Caminharam durante horas a fio e pelo caminho a misteriosa rapariga enfrentou os guardas que foram aparecendo para tentar resgatá-la de volta para a torre. Tânia olhava para ela e admirava a sua coragem, a sua ferocidade, a sua força… Com o passar das horas os guardas deixaram de aparecer e começou a sentir-se em segurança.
- Acho que desistiram de me resgatar. – Disse enquanto descansavam numa clareira.
- Quem sabe? Mas temos de estar sempre preparadas, alertas. Até estarmos em segurança…
- Sim, compreendo. Posso pedir-te uma coisa?
- Ensinas-me a cantar? Aquela música que disseste que me libertava…
- Tânia, sei que não te lembras de mim, mas nós já estivemos juntas muito antes de ires para aquela torre. Na realidade quem me ensinou a cantar foste tu.
- Eu? Sim, tu. Quando ainda não sabias o que era o mundo… Agora vamos… O lugar seguro está perto. Aí poderemos falar.
Seguiram viagem e Tânia questionava-se sobre esta nova amiga. Uma rapariga que apareceu do nada para salvá-la. Onde esteve estes anos todos? Porque não veio antes se era tão sua amiga?
Chegaram a uma clareira e a rapariga parou.
- Finalmente. Aqui já ninguém nos poderá alcançar.
- Obrigada, por me teres salvo… Obrigada por me trazeres de volta ao mundo… Obrigada por me defenderes…
- Eu nasci para te defender. Há muitos anos atrás quando não tinhas medo do mundo estávamos sempre juntas… Éramos como uma só… Eu existo porque tu existes…
- Como assim? De onde vens tu?
- De dentro de ti…
- De dentro de mim? Quem és tu?
- Tânia, olha bem para mim. Lembra-te de mim. Eu existo porque tu existes…
- Porque é que não vieste antes?
- Eu vim quando tu chamaste por mim...
- Eu? Chamei por ti... Como assim? Quando?
- Há umas noites atrás... Senti-te por breves instantes a sentir o mundo. Senti-te a saborear a liberdade e chamaste por mim.
- Como se não sei quem tu és… Não sei sequer como te chamas...
- Oh Tânia, eu? Eu sou parte de ti. Eu sou a Annia…
Adelaide Miranda, 21 de Setembro 2016
Contactos para entrevistas e espetáculos:
Facebook.com/anniaofficial

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